
Experiências bem-sucedidas de resiliência climática protagonizadas por agricultoras e agricultores de Pernambuco estarão no centro do diálogo entre o Brasil e o Quênia sobre segurança hídrica e combate à fome. A partir de segunda-feira (5), representantes dos dois países participarão do “Intercâmbio de Experiências – Programa Cisternas e Tecnologias Sociais de Acesso à Água”, que percorrerá os municípios de Pesqueira, Buíque, Carnaíba, Afogados da Ingazeira, Tabira e Tuparetama.
A iniciativa é um desdobramento do webinar promovido, em julho, pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e pelo Mecanismo de Apoio da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Na ocasião, discutiu-se como as tecnologias sociais brasileiras podem apoiar a implementação do Programa Maji Plus, uma ação do governo queniano voltada à garantia de água e à construção de resiliência em comunidades vulneráveis.
Desta vez, gestores, técnicos e especialistas quenianos vão conhecer na prática como o ciclo do Programa Cisternas se desenvolve nos territórios, desde os marcos normativos e institucionais até a gestão comunitária na ponta. Instituída como política pública em 2003, a iniciativa constrói reservatórios de 16 mil e 52 mil litros, que garantem o direito à água de qualidade e já beneficiam mais de 1,4 milhão de famílias, sobretudo no Semiárido.
Delegações
A missão técnica reunirá cerca de 30 participantes. A delegação africana será composta por lideranças estratégicas de órgãos como a Autoridade Nacional de Gestão de Secas, o Ministério da Educação, o Ministério do Trabalho e Proteção Social, o Tesouro Nacional do Quênia e o escritório do Programa Mundial de Alimentos (PMA) no país.
Pelo lado brasileiro, a ação é promovida pela Assessoria Especial de Assuntos Internacionais (Aessin) e pela Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan) do MDS, em parceria com o Centro de Excelência contra a Fome do PMA e a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A coordenação é da Agência Brasileira de Cooperação (ABC).
“Esses momentos de intercâmbio são importantíssimos para aprofundar o diálogo sobre as tecnologias sociais, o acesso à água e a produção de alimentos em bases agroecológicas. Sejam eles com governos brasileiros, estudantes, professores universitários ou mesmo entre agricultores e agricultoras, os intercâmbios são primordiais para o fortalecimento do que a gente entende como o processo de Convivência com o Semiárido”, afirma a coordenadora executiva da ASA, Waneska Bonfim.
Programação
O Intercâmbio de Experiências – Programa Cisternas e Tecnologias Sociais de Acesso à Água começa na sede da Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC) – personalidade jurídica da ASA –, no Recife. Representantes do MDS e da Articulação apresentarão como funcionam o arranjo institucional, o financiamento, a participação social e os modelos de tecnologia do Programa Cisternas.
Na terça-feira (6), terá início a imersão de campo com visitas a comunidades, escolas rurais e unidades produtivas da agricultura familiar que são acompanhadas pela Diaconia, Cáritas Diocesana de Pesqueira, Casa da Mulher do Nordeste e pelo Centro Diocesano de Apoio ao Pequeno Produtor (Cedapp).
O roteiro começa em Pesqueira, no território indígena Xukuru, onde os intercambistas conhecerão a Casa de Sementes Mãe Zenilda Xukuru, o laboratório de plantas medicinais, uma agrofloresta e práticas de recuperação de áreas degradadas. Em seguida, as delegações irão para a propriedade de Abel e Iraci Santiago, que cultivam horta, frutíferas e plantas ornamentais, em Buíque.
Na quarta-feira (7), a comitiva chega ao município de Carnaíba, onde conhecerá o Sítio Mata Verde, de José Edson e Rosana Souza, que desde 2024 contam com uma cisterna de 52 mil litros para a produção de alimentos. Com a água da chuva armazenada, a família cria pequenos animais e produz queijo e manteiga de gado.
Em um segundo momento, os quenianos terão a oportunidade de visitar o Sítio Quintas e entender como, além das cisternas, o Fomento Rural contribui para a segurança e a soberania alimentar da família de Patrícia Nunes. Na mesma propriedade, haverá uma roda de conversa com o grupo de mulheres Rosa do Sertão, que desenvolve atividades de coleta seletiva na região.
Por fim, encerrando a passagem por Carnaíba, os intercambistas visitarão Cleonice Martins para conhecer sistemas de tratamento de esgoto com produção de biogás e geração de energia solar. A agricultora também atua como guardiã de sementes crioulas e comercializa sua produção agroecológica por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
À tarde, o intercâmbio de experiências será em Afogados da Ingazeira, mais precisamente na comunidade Carapuça, onde fica localizada a Escola Municipal Levino Cândido. A unidade de ensino, construída há 77 anos, deixou de depender de um poço artesiano e, hoje, conta com uma cisterna de 52 mil litros que garante o funcionamento regular e a manutenção de uma horta pedagógica.
O último dia da imersão no campo será na quinta-feira (8), quando o grupo desembarca em Tabira para acompanhar a construção de uma cisterna-calçadão. A tecnologia social é a mais difundida para o armazenamento de água da chuva destinada à produção de alimentos, também chamada de “segunda água”.
Ainda pela manhã, os representantes dos governos brasileiro e queniano visitam a propriedade de Ivan Monteiro, localizada entre Tuparetama e Afogados da Ingazeira. O agricultor vai mostrar como consegue produzir sem veneno, gerar renda e sustentar a família no Semiárido graças à cisterna de 16 mil litros – reservatório que guarda água para beber e cozinhar – e a uma barragem subterrânea.
A missão técnica termina na sexta-feira (9), na sede da AP1MC, no Recife, com um momento de avaliação. O objetivo será refletir sobre os aprendizados e mapear as práticas que poderão ser adaptadas à realidade institucional e territorial do Quênia.
Cooperação Sul-Sul
Para a ASA, uma cooperação técnica como essa realizada com o Quênia fortalece os laços entre os países do Sul Global e reafirma o papel do Programa Cisternas como referência internacional em políticas públicas descentralizadas e participativas para o acesso à água e o combate à fome.
“Que a experiência brasileira desenvolvida pelo conjunto de organizações que compõem a Rede ASA possa ser inspiradora para outros países que têm uma realidade climática semelhante à nossa. Então, é muito importante para a gente reconhecer a experiência brasileira e, ao mesmo tempo em que a gente propõe e apresenta essa experiência para outros países, a gente também fortalece as nossas escolhas e revisa as nossas práticas à medida que a gente se abre ao diálogo com outras pessoas que vêm de outros países”, explica Waneska.

